Comerciante descobre certidão de óbito e túmulo em seu nome

Comerciante descobre certidão de óbito e túmulo em seu nome

Foto: Maiara Barbosa/G1

Carlos Fernando Moreno Manzano soube no dia 7 de outubro, primeiro turno das eleições, que não poderia votar porque estava “morto”. O homem sem conseguir acreditar no que estava ouvindo correu atrás da história e chegou a sua sepultura no Cemitério da Saudade, em Mogi das Cruzes, com morte datada em de novembro de 2017.

A confusão começou quando entregou seus documentos para os mesários da Escola Estadual Raul Brasil. “Entreguei meu título e, pelo nome, o mesário foi consultar a lista para eu poder assinar e depois votar. Só que do Carlos Alberto, do Carlos Eduardo, já pulou para o Carlos Henrique e meu nome não estava lá. Foi aí que o mesário viu, no fim do caderno, que meu nome constava na lista de falecidos. Só que eu estou aqui, eu estou vivo.”

Tentando provar que está vivo, Carlos Fernando não poderá votar neste ano. “Todo ano eu anulo meu voto. Dessa vez que eu tinha escolhido meus candidatos, não consegui votar!”

O homem foi até o Cartório Eleitoral de Suzano e foi orientado a procurar uma agência do INSS. Lá, ele descobriu que sua morte tinha sido registrada em um cartório de Mogi das Cruzes. Ao ter acesso ao próprio atestado de óbito o comerciante visitou o túmulo onde alguém foi enterrado em seu nome. “É uma sensação estranha. Coitado do cara que está enterrado ai… Estão rezando para a pessoa errada.”

De acordo com a declaração de óbito emitida por uma funerária, Carlos morreu de causas naturais no Hospital Luzia de Pinho Melo, também em Mogi. “É uma coisa constrangedora e frustrante. Você está vivo, mas não está vivo. Na hora eu levei um choque, mas depois a ficha caiu e percebi que para certas coisas eu estou vivo, para outras não. Eu tenho um pequeno comércio em meu nome, pago os impostos, mas não pude votar.”

O morador de Suzano procurou a polícia e registrou um boletim de ocorrência por falsificação de documento público. A polícia já apurou que quem procurou a funerária para declarar o óbito foi uma mulher, que se disse amiga da vítima. Ela apresentou o atestado de óbito emitido pelo hospital e o documento de identidade do falecido. Com a documentação, a funerária emitiu uma declaração de óbito e o corpo foi velado.

Segundo o delegado, o inquérito já foi instaurado e uma das suspeitas é que uma pessoa procurada pela Justiça estava usando documentos falsos em nome de Carlos Fernando.

De acordo com a polícia, uma mulher chegou a entrar em contato com a funerária e dizer que o homem enterrado era na verdade o filho dela, Antônio Carlos Lisboa Leão, que tinha 55 anos. O delegado explica ainda que, esse homem respondia por crimes como estelionato, roubo e falsificação de documento público. Ele estava foragido da penitenciária de Mongaguá desde 2003.

Vamos localizar a mulher que declarou o óbito. Estranhamente, essa pessoa se alegou amiga dele, sendo que ele tem família, tem filhos e ninguém teria acompanhado esse registro”, explica.

O delegado explica que agora vai pedir autorização à Justiça para que seja feita a exumação do corpo enterrado. A intenção é identificar o morto por meio de exames de DNA, porém não há prazo para que isso seja feito. “Ainda é prematuro dizermos alguma coisa no sentido de fraude no hospital. Mesmo assim, vamos ouvir o médico que atestou o óbito”, finaliza.

O Cartório de Registro Civil de Mogi das Cruzes informou que o CPF do falecido não foi apresentado quando o óbito foi declarado, mas, segundo nota enviada pelo cartório, é “obrigatório constar nos registros e certidões o CPF após a consulta na base de dados da central de informações do Registro Civil.”

Carlos Fernando consultou um advogado e irá entrar com um processo na Justiça. Enquanto isso, seu CPF continua ativo para a Receita Federal e, inclusive, ele recolheu nesta semana impostos por ser um Microempreendedor Individual (MEI).

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